quinta-feira, 24 de abril de 2014

Garota.

Ela estava cansada de ficar com as sobras de seu amor, ela não era adepta a esmolas. Não queria mais sentar na relva a noite, sentir a brisa noturna acariciando seus cabelos enquanto sua cabeça recostava no colo dela. Já encontrava-se cansada há muito tempo e agora começava a perceber tamanho desgaste que sua presença lhe fazia. Decidiu não montar sua árvore naquele Natal, não queria mais ver a maldita estrela no topo. Não quis pular as sete ondas no Ano novo pois não precisava de sorte, nunca acreditou nessas coisas. Naquela manhã nublada, ela não preparou seu café, e muito menos lhe disse adeus. Na verdade, ela nem sequer se mexeu na cama, e posso afirmar, que também não abriu os olhos quando viu as luzes acessas. A garrafa vazia da noite passada lhe fazia companhia ao lado da cama de casal, e honestamente, era a única companhia que realmente lhe importava. Ela não queria abrir as janelas, e muito menos te ver saindo do apartamento para o seu bendito trabalho. Na verdade, o que ela menos queria era ouvir você falar sobre o futuro que queria construir, algo que constantemente ecoava em sua cabeça. Por muito tempo, ela não quis nada, e agora, só queria poder ter te mandado embora a mais tempo.
Naquela tarde, quando ela finalmente abriu os olhos, agradeceu por lembrar que sua presença era apenas uma alucinação derivada das noites insanas e bêbadas que ela gostava tanto de ter depois que você partiu. Ela arrumou os cabelos ruivos num rabo de cavalo, acendeu um cigarro e o levou aos lábios ainda borrados de batom. Essa era a vida que ela tanto queria, perdida para muitos, mas totalmente encontrada para si mesma.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Carta.

Eu gostaria de poder não ir, dizer algumas bobeiras e deitar ao seu lado, mas se eu ficar, estarei a todo momento pensando em partir e provavelmente seria incapaz de dizer adeus. Contaria as horas no relógio na parede da cozinha e por mais que eu saiba que não funciona mais, estaria sempre na hora de ir embora. Poderia simplesmente seguir tal rumo e aparecer em momentos aleatórios para um café com biscoitos, mas seu café é amargo e seus biscoitos caseiros são sempre queimados. Sei que é difícil partir mas meu gosto por aventuras é mais plausível do que sua pluralidade pra amores e paixões. Deixo-te na mesa apenas uma carta de despedida e meia dúzia de bonequinhos de papel, lembrança mais nítida de um passado tão presente para nós. Por fim, lhe digo que sentirei saudades, mas não daquelas que deveríamos matar ao nos reencontrarmos, afinal, faz tempo que nós dois cometemos um suicídio emocional.

PS: Se por ventura encontrar-me em tempo, diga que me ama e me acerte um tapa na cara, faria o mesmo se ainda fosse capaz de te ver.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Destrua-me.

Cace-me por noites afinco.
Me assombre por semanas,
Perturbe-me em meus sonhos,
Diga-me poucas verdades e encha-me de mentiras.
Apague-me e esqueça-me quando achar melhor.
Monte e desmonte-me quantas vezes você considerar necessário.
Morda-me e mastigue-me para provar da carne.
Torture-me e faça-me sangrar por sua diversão insana.
Misture-me com suas tintas e pinte-me abstrato, retorcido
Odeie-me se quiser
Mate-me se lhe for conveniente.
Faça-me sentir o inferno na pele
Desonre-me por puro prazer.
Deixe-me sozinho no escuro
Amaldiçoe-me por gerações.
Apenas não me faça apaixonar-me por ti.
Não seria capaz de aguentar tal sofrimento...

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Photophobia.

A claridade quase sempre feriu minha visão. Não vi mais o mundo com o mesmo brilho depois da minha infância na qual não lembro se as luzes já me incomodavam ou se tornei a sofrer com isso conforme crescia. Me acostumei a ver a vida com o tom esverdeado das lentes dos meus óculos escuros. Não fui capaz de ver as cores com a mesma nitidez que todos os outros veriam e talvez isso tenha mudado a forma como percebo as coisas que vejo. Muitas vezes acabei torturando-me por questão de esquecimento, ao sair com os olhos desnudos em dias de sol, nos quais quase ninguém teria problema em sair. Outras tantas  reclamei do sol e em algumas deixei de viver o mundo lá fora, por preguiça de encarar o que tanto me incomoda. Toda e qualquer luminosidade exagerada me incomoda, mas é apenas no brilho dos seus olhos que encontro toda luz que não sou capaz de enxergar.