quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Submersão.

Deveria ter escrito algumas mentiras em um pedaço gasto de papel, provavelmente reaproveitado de algum de seus desenhos bizarros, e ter lido em voz alta como se contasse-as a si mesmo. A falta de sentimentos e emoções tornava-se tão aparente, que muitas vezes havia se perguntado se não era na verdade um robô e que tinha se enganado por toda sua vida, mas a realidade que agora misturava-se com mais frequência às suas fantasias infantis, ainda era forte o suficiente para não o fazer acreditar em tal asneira. Doces manhãs foram aquelas em que acordava cedo para plantar as flores que avistava da janela, dedicou-se tanto amor a elas, mas agora, eram só fantasmas do que haviam sido, sobrando apenas caules moles e folhas secas destrinchadas lentamente por lufadas esporádicas de um vento frio e cortante como os pedaços de seu coração. Suas alegres musicas agora encontravam-se em um passado distante e fragmentado em sua memória, na verdade, sua própria mente parecia estar em um estado próximo. Naqueles dias recentes, era incapaz de acreditar em suas próprias lembranças, aquelas as quais tentavam desesperadamente motivá-lo e fazê-lo voltar daquele espaço estranho e distorcido chamado loucura que instaurava-se em seu interior. Naquela manhã, balbuciando palavras aleatórias, ele afogou-se em sua insanidade, um mar obscuro de lembranças, momentos, histórias e minutos vividos até agora, somados a uma mistura suja e decadente de ilusões, decepções e tristezas amargas.  Não sabe-se ao certo o que aconteceu depois, afinal, dizem que nenhum humano costuma sobreviver a tal profundidade...